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Na base do diálogo | Entrevista com Márcia Abrahão

por acm

entrevista-reitora-da-unb-marcia-abrahaoDocente da Universidade de Brasília desde 1995, Márcia Abrahão será a primeira mulher a exercer o cargo de reitora efetiva na instituição. Possui graduação (1986), mestrado (1993) e doutorado (1998) em Geologia pela UnB. Pós-doutora na área, é natural do Rio de Janeiro, mas foi criada na cidade desde a infância. Com experiência privada e empresarial, na Petrobras, no Banco Central e desde 2014 como diretora do instituto, ela conta como trabalhará nos próximos quatro anos: com muito diálogo.

Eu gostaria que a senhora falasse dos desafios de comandar a UnB até 2020 em tempos de contingenciamento, de crise.

Eu tenho experiência como diretora do Instituto de Geociências e coordenei o programa de expansão da UnB, e naquele momento, investimos pesadamente em infraestrutura, criando os campi do Gama, Ceilândia, cujo projeto coordenei, e ainda houve a expansão de Planaltina e do campus principal, aqui na Asa Norte. Essa minha experiência será muito importante agora, nesse momento de dificuldade financeira e retração econômica no País. Precisamos de alguém com essa capacidade de gestão e articulação externa. Nesses próximos  anos, trabalharemos nisso. Primeiro, porque a UnB hoje está com uma dificuldade anterior à nova gestão que é de execução do orçamento que recebe. Precisamos começar executando plenamente o orçamento. Quando há pouco dinheiro é que não se pode desperdiçar mesmo. Tem outra coisa: precisamos ir em busca dos locais onde podemos economizar, como água, luz. Tentar reduzir gastos, sem abrir mão da qualidade do serviço que prestamos à sociedade. Não podemos reduzir gastos e manter o mato alto. Eu, que sou da área de Exatas, acredito que tem que haver uma equação que feche. Além disso, temos que ampliar a captação de recursos próprios. Além dos recursos que recebemos do Ministério da Educação –  e sobre isso, o orçamento está garantido, sem previsão de cortes – a proposta orçamentária da UnB para 2017 não tem cortes, é importante dizer – uma dificuldade que temos hoje é que a UnB teve queda na arrecadação de recursos próprios. Sou diretora de um departamento que é um dos maiores captadores de recursos aqui dentro. No Instituto de Geociências, trabalhamos com a Petrobras, com a Vale, empresas públicas e privadas. Acredito que a UnB tem que se abrir mais para a sociedade e também reforçar a interlocução com o Congresso Nacional. Buscar recursos de projetos e de emendas parlamentares. Esse movimento, inclusive, eu já iniciei.

Como a UnB pode conseguir esses recursos?

A UnB desenvolve projetos com os ministérios, por exemplo, o governo tem um problema para resolver, precisa fazer a integração dos sistemas dos ministérios. Procura as pessoas experientes daqui e descentraliza recursos para a universidade, mediante um serviço, ela recebe recursos. Teste das urnas eletrônicas, monitoramento das hidrelétricas do País por meio de contratos com várias empresas, como Eletronorte; a Faculdade de Tecnologia presta muitos serviços na sua área. Há muitas oportunidades. Temos cerca de 3 mil professores, a maioria com doutorado, além de 3 mil técnicos, com grau de formação muito alto. Oferecemos cursos para a sociedade, para empresas e para o governo, como especializações. Os laboratórios realizam análises para diferentes áreas. Eu sou uma gestora considerada muito ágil. Então, o que precisa ser feito aqui é dar agilidade aos processos, acelerar a tramitação de processos internos. Como docente, por exemplo, consigo um projeto no governo. Aí, aqui dentro, é uma novela tão grande, que o professor desiste. Temos que estimular a captação, mas, em contrapartida, precisamos ser mais ágeis na tramitação desses processos e depois, na execução dos recursos. Quando participei da gestão do Reuni (Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais), conseguimos executar mais de 100% dos recursos. Executamos os nossos e que outras universidades deixaram de executar. Criamos um fluxo próprio, obtivemos aval da Procuradoria Jurídica e com o pessoal de compras, e seguimos adiante. Dá para fazer tudo isso.

Como a senhora se coloca no contexto de ser a primeira mulher eleita para o cargo?

Primeiramente, é um orgulho, tanto como ex-aluna da UnB, mas também como mulher. É um desafio e uma responsabilidade enorme para com as mulheres e a sociedade neste momento. Serei a reitora de toda a comunidade acadêmica, mas por ser mulher, temos algumas características de gestoras, que nos diferenciam dos homens. Eu vou utilizar essas características. O vice-reitor, Enrique Huelva, e eu, somos pessoas de diálogo, procuramos o consenso, onde for possível. Outro ponto importante é que temos que ter um olhar específico para as mulheres, como uma ouvidoria específica. É sabido que muitas vezes elas deixam de fazer reclamações por não se sentirem acolhidas, não se sentirem devidamente seguras em determinados mecanismos. As estatísticas de segurança mostram que quem é mais vulnerável à violência é a mulher. Temos que buscar externamente como tratar isso. Temos especialistas em questões de gênero. Vamos buscá-los para traçar uma política para mulheres, questões de gênero, diversidade. Buscaremos parcerias para a implantação de creches, tanto para as servidoras quanto para estudantes. Também na Casa do Estudante, vamos terminar com a proibição de que estudantes que engravidam, tenham que deixar a universidade. Essa estudante, que já está em uma situação difícil, estudando, longe da família, acaba desistindo de estudar. Isso não pode continuar.

Uma das pautas que a senhora defendeu durante a campanha é a criação de um programa de acompanhamento dos alunos formados. No que consiste?

Os ex-alunos precisam ser integrados sim, à universidade. É preciso fazer esse acompanhamento dos egressos. O Decanato de Planejamento avançou um pouco  nesse assunto, mas é preciso avançar mais. Queremos nossos egressos participando do nosso dia a dia. Temos a associação dos ex-alunos, mas que precisa atender à grande maioria e não um grupo específico. Os ex-alunos têm um assento no Consuni, por exemplo, mas a forma de escolha desse assento é muito limitada. Vamos mudar isso.

Como serão combatidas as intolerâncias (misoginia, transfobia, racismo) dentro do campus na gestão da senhora?

Buscaremos esses grupos, como o Centro de Ensino Multidisciplinar, que tem núcleos que estudam questões de gênero, racismo etc. Esses grupos serão chamados para traçar uma política que terá que envolver toda a comunidade acadêmica. Trabalharemos com informação e segurança. Teremos que ter uma segurança bem formada, capacitada, para lidar com esse momento da sociedade. Há ainda a Diretoria da Diversidade, que foi criada recentemente, e tem que ser fortalecida e com políticas que atendam às nossas necessidades. Tem também o Decanato de Assuntos Comunitários, que será fortalecido na nossa gestão.

A UnB forma muitas cabeças pensantes que nem sempre ficam no DF, produzindo e transformando o conhecimento adquirido de maneira a fomentar a economia local. Como manter esse pessoal aqui?

Temos ex-alunos que são professores no exterior, por exemplo. Temos várias maneiras, inclusive, por meio de uma integração com a sociedade. Há o Centro de Desenvolvimento Tecnológico (CDT), que é uma grande encubadora de empresas. É um local de interface muito grande com a sociedade e com os ex-alunos. Nós aqui da Geologia, por exemplo, temos empresas de sucesso, que nasceram no CDT e depois, elas acabam ficando em Brasília. A Cidade Digital, que é uma proposta do governo do DF, também queremos atuar com o governo para fortalecer a proposta, que é uma oportunidade de emprego para essas pessoas continuarem aqui em Brasília. Além disso, tem o Parque Científico e Tecnológico da UnB, que queremos apoiar. Para isso, precisamos da interação com os empresários da cidade e do País. A maneira de atrair é a universidade interagir mais com a sociedade, com os governos, para criar condições dessas pessoas ficarem aqui.  Com isso, os estudantes acabam conhecendo mais as oportunidades. Os estudantes, muitas vezes vão para o exterior, porque desconhecem o que pode ser feito aqui. Por isso, estamos totalmente abertos a parcerias. Precisamos ter isso em mente.

O Sesc, braço social da Fecomércio, realiza várias parcerias com a UnB. A senhora pretende ampliar parcerias com outras instituições?

Quando implantamos o campus no Gama, em 2008, tivemos problemas de espaço. Então, tivemos que usar as instalações do Fórum e depois, com o atraso das obras, alugamos um prédio do Sesc e ficamos lá por quase dois anos. Quando fui, recentemente, participar da abertura do evento 25h Nadando, percebi que poderíamos ter muito mais parcerias com muitas outras instituições, como o Sesc, com o Centro Olímpico e os nossos atletas, enfim. A ideia é utilizar todas as oportunidades que tivermos. A UnB Idiomas, por exemplo, oferece cursos de línguas para oito mil alunos por ano. Temos o Coral da UnB, aberto à sociedade. O Hospital Universitário é outra grande porta para a sociedade, por ser referência em atendimento. Precisamos, inclusive, que a sociedade e os governos entendam a importância de se manter o HUB, uma vez que ele precisa de recursos para sobreviver.

E sobre o comércio que funciona internamente no campus?

Eu estudei aqui em 1982 e vejo que alguns comerciantes estão aqui desde aquela época. Alguns têm uma relação histórica com a universidade. Teve recentemente um embate que poderia ter sido resolvido de uma maneira mais simples, que é como nós vamos atuar, com diálogo. O que nos preocupa é a questão de higiene e estética. Para isso, existe um projeto da Faculdade de Arquitetura, que precisa ser recuperado, para organizar o comércio interno de maneira padronizada. Quando se ameaçou uma retirada, a comunidade acadêmica foi contra, pois ela precisa do comércio para comer. Por outro lado, construímos aqueles módulos de serviços, pois sabemos que precisamos de mais comércio aqui dentro. Precisa também que o preço cobrado de aluguel seja adequado. Os comerciantes reclamam, pois como ficam quatro meses fechados, nas férias, é preciso haver essa adequação nos valores cobrados. Queremos sim, que o comércio legalizado venha para cá. Mas uma universidade que é formadora, não pode incentivar um comércio que não é legal. É preciso ter preços adequados para o tipo de serviço que eles oferecem e para as características da comunidade. Precisamos ter mais restaurantes, lanchonetes, hotel. Vamos trabalhar para isso nos próximos anos. A Unicamp, por exemplo, tem no seu campus, um hotel maravilhoso. Regularizar o que precisa ser regularizado, buscando a legislação existente, mas também respeitando a história. Temos o Chiquinho Livreiro, não podemos simplesmente falar para ele arrumar as coisas dele e ir embora. Temos que dar condições.

E quanto à segurança aqui dentro do campus? Há novidades?

É o que eu sempre falo: não estamos isolados da sociedade. Infelizmente, nosso País tem índices de violência elevados e a universidade também acaba sendo vítima desse processo. A segurança envolve diferentes ações. Sabemos que os grupos mais vulneráveis são as mulheres.  A questão material, de infraestrutura  interna, como iluminação, por exemplo, é outra questão. Temos que identificar os principais horários – de noite? de dia nos estacionamentos? Nesses locais, termos uma segurança reforçada para evitar casos corriqueiros que não podem acontecer. Sobre monitoramento por câmera, já temos instaladas nos estacionamentos, mas descobrimos que elas não funcionam. É preciso reorganizar tudo isso. É preciso ainda reavaliar o contrato com a empresa de vigilância, verificar se está atendendo às nossas necessidades, integrá-los ao nosso pessoal de segurança. Tem também uma outra questão que é a nossa relação com o GDF, que envolve os ônibus. Se tivermos horários e itinerários de transporte que atendam melhor às necessidades dos alunos, eles ficarão menos tempo nos pontos de ônibus e ficarão menos vulneráveis. Já conversei isso com o governador, também sobre o policiamento dentro do campus. Temos aqui dentro um batalhão de polícia. Precisamos desse policiamento nas áreas de maior vulnerabilidade, mas principalmente nos horários que mais precisamos. Temos que contrabalancear isso. Não precisamos de polícia para resolver nossos conflitos internos, temos que ter capacidade para isso. Essa é a diferença da nossa forma de tratamento. Aqui dentro, trabalhar de forma a dialogar. Outra questão pertinente é a informação. Temos que ter o máximo de informação interna e externa para as pessoas saberem o que está acontecendo, e isso ajuda a diminuir a sensação de insegurança, e canais como a ouvidoria, seminários e políticas específicas para aumentar a segurança e a sensação de segurança. Se vamos sair nós duas, 22h, melhor sairmos juntas. Vamos criar grupos para evitar isso. Estou programando um seminário para tratar da questão da segurança até dezembro, com especialistas para debater isso.

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