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Insegurança ronda as lojas das entrequadras de Brasília

Os crimes no comércio estão cada vez mais ousados, ocorrem em plena luz do dia. As câmeras de segurança não intimidam mais a ação dos bandidos que entram armados e rendem funcionários. A insegurança ronda os empresários e moradores, e por outro lado, a impunidade motiva a ação dos criminosos. Dados da Secretaria da Segurança Pública e da Paz Social do Distrito Federal registraram somente de janeiro a maio deste ano 1.253 assaltos ao comércio no DF.

A Polícia Militar alerta, entretanto, que muitos casos não entram na estatística porque não são registrados na Delegacia da Polícia Civil. Quando tratamos da região central de Brasília, por exemplo, os números não condizem com a realidade: 37 assaltos ao comércio foram informados na Asa Sul e 32 na Asa Norte nos cinco primeiros meses deste ano. De acordo com o levantamento, seria uma média de quatro roubos por mês – número irreal, pois percorrendo uma única quadra do Plano Piloto foram constatados quatro crimes em um só dia.

A Secretaria de Segurança lembra também que só com os registros dos empresários será possível desenhar mais precisamente o mapa da violência em cada região. O que ocorre é que muitos donos de lojas já estão cansados com os constantes assaltos que ocorrem, às vezes, com somente dois dias de intervalo e por isso, deixam de fazer o Boletim de Ocorrência (BO).

Para o presidente da Fecomércio-DF, Adelmir Santana, os empresários, os trabalhadores do comércio, os clientes e demais cidadãos, estão inseguros e com medo. “Vemos, por exemplo, arrastões nas quadras movimentadas de Brasília. Hoje poucas lojas ficam abertas 24 horas. Os empresários sofrem com a impunidade. Os criminosos sabem que, mesmo se forem presos estarão soltos em pouco tempo. O Código Penal Brasileiro criou uma situação por meio da qual o bandido é quase que encaminhado diretamente para a liberdade. A culpa não é da polícia ou da Justiça, mas claro que todos têm as suas obrigações. O problema maior existe na legislação”, apontou.

Planejamento nas ações

De acordo com o professor e especialista em segurança pública da Universidade Católica de Brasília, Nelson Gonçalves, é preciso ter mais planejamento nas ações policiais. “Sempre que falamos em segurança pública, temos que analisar a maneira como os recursos disponíveis estão sendo utilizados. É necessário verificar a maneira correta de alocação de pessoal, se estão com os equipamentos certos e nas áreas corretas. O problema é que não são aplicadas metodologias adequadas. Gestão é primordial, utilizando de ferramentas da tecnologia da informação que permitam prever de forma antecipada o crime por meio de policiamento preditivo. No DF se investiu muito em monitoramento por vídeo, prática já disseminada no mundo, mas não adianta registrar se a gestão não tem uma reação adequada”, questionou.

O gerente da loja Free Corner, da 304 Sul, Marcelo Henrique de Sousa, sabe bem o que é sofrer com os constantes assaltos. Ele estima que já perdeu R$ 60 mil somando os três últimos assaltos. “Desde que estou na gerência, a loja foi assaltada três vezes, duas somente neste ano. Uma vez arrombaram de noite e levaram os produtos mais caros. Da segunda vez, o assaltante entrou armado depois do horário do almoço e fez todos reféns. Da última vez, ocorreu às 11h26 da manhã. Os quatro bandidos renderam os vendedores e um cliente que estava na loja. Eles são muito rápidos, com dois minutos conseguem fazer um grande estrago”, relatou.

Marcelo reclama ainda que a polícia demora muito para ir até o local do crime. “Eu registrei todos os casos, mas só depois de 1h é que chega a polícia. Da última vez, foram rudes com a gente porque havíamos tocado na cena do crime, mas temos que atender os clientes que chegam e como demoram não podemos perder vendas, levando em conta o grande prejuízo que já passamos. É fato que falta segurança. Deveria ter um carro móvel da polícia, pois do que adianta eu colocar grade na frente, alarme e circuito interno de câmeras e não ter policiamento? Eu não posso fazer mais nada. Só Deus para proteger a gente. Os casos acabam afetando nas vendas e gerando rotatividade dos funcionários, por conta do medo”, relatou.

A vendedora da Free Corner, Jaqueline Aires de Sousa, estava presente no último assalto e conta como foi a sensação. “Foi horrível. Eles estavam armados e fizeram a gente refém. Me sinto muito mal em trabalhar com medo e que isso se repita. Fico imaginando: será que amanhã vai ocorrer? Eles vão voltar? Falta segurança”, desabafou.

Arrombo de noite

 A loja de esportes não é a única que já sofreu com a ação dos assaltantes na mesma quadra. O gerente do restaurante Entrecôte, Marcelo Rodrigues, já teve o estabelecimento arrombado no ano passado. “O assalto aqui foi durante a madrugada. Os caras arrombaram os dois vidros do fundo. Antes não tinha a grade protetora e hoje já tem. Levaram o dinheiro que estava no caixa e bebidas. Perdemos em torno de R$ 2 mil. A gente se sente de mãos atadas. É muito perigoso trabalhar aqui, principalmente domingos e feriados, pois só a farmácia ao lado que fica aberta. Essa farmácia, por exemplo, sofre assaltos quase toda a semana, até mesmo com a presença da polícia na frente. Tenho tanto medo que só destravo a porta quando chega o restante do pessoal, porque sempre sou o primeiro a chegar”, reclamou.

Considerada a quadra modelo de Brasília, a 307 Sul é repleta de atrativos turísticos, como a Igrejinha de Oscar Niemeyer e os jardins de Burle Marx. Mas a violência e o crime assombram o local. O posto da Polícia Militar que deveria garantir mais segurança não funciona mais. Na área há adesivos que alertam o abandono da segurança pública. O morador e engenheiro, Eduardo Moreira, reclama da presença dos moradores de rua. “O problema são os usuários de drogas que ficam mais na área comercial. Já tivemos até casos de troca de tiros entre traficantes”, afirmou.

Entretanto, a prefeita da quadra, Fátima Sousa, desconhece o autor dos adesivos espalhados pela quadra e defende que a região é segura. “Algum morador que se sente inseguro deve ter fixado o adesivo, mas não é verdade porque vemos quase todo dia policiamento por aqui. Claro que não é o ideal, como em qualquer parte do mundo, mas há sim patrulhamento constante. O que acontece é que alguns moradores de rua aparecem por aqui e a polícia não pode retirar”, explicou.

A proprietária da banca de jornal da quadra, Alessandra Pereira, já sofreu três tentativas de assalto neste ano, mas não registrou nenhum dos casos porque está cansada com as repetidas ações. “A última tentativa de roubo foi por volta das 16h. Ele parecia ser menor de idade. Entrou armado, mas percebi que a arma era de brinquedo e gritei. O meu outro funcionário conseguiu agarrar ele, mas como tinha outro parceiro esperando acabaram conseguindo escapar. E garanto, é difícil ver policiamento constante por aqui”, assegurou.

Segundo o gerente de uma farmácia da região, que preferiu não se identificar, conta que já assaltaram duas vezes o estabelecimento só neste ano. “Os dois assaltos ocorreram em abril com um intervalo de dois dias. Eles entraram armados colocaram a gente nos fundos da loja. No fim do ano passado, em novembro, também sofremos um roubo. Estimo que perdemos cerca de R$ 8 mil.  Eu percebo que fica horas sem passar o carro da polícia e de noite, horário, em que fomos assaltados, não passa policiamento. Sinto descaso e impunidade”, contou.

Na Asa Norte

Na quadra 312 Norte quatro lojas foram assaltadas em um só dia no mês de março. A empresária dona de um salão de beleza, Simone Pina, teve um prejuízo de R$ 5 mil depois que fizeram um arrastão durante a noite. “Arrobaram a loja, levaram produtos, uma televisão que ainda estou pagando e dinheiro do caixa. Aqui na quadra tem muito usuário de drogas”, contou indignada.

Simone se sente presa, enquanto os bandidos estão livres. “Tive que mandar reforçar a porta, coloquei duas trancas fortes e três cadeados. Me sinto prisioneira. Depois das 18h tenho que trabalhar com o portão fechado. Coloco um cadeado e uma tranca de ferro por dentro. O pessoal da quadra estava até pensando em contratar um vigia particular durante a noite. Na época, pregamos várias faixas na entrada da comercial para reclamar da falta de segurança”, citou.

A empresária dona de uma casa de bolos, Girlene Araújo Nascimento, foi outra vítima do mesmo arrastão na 312 Norte em março, mas decidiu não registrar o caso porque acredita que nada acontece. “Tenho cinco lojas no Distrito Federal, inclusive duas no Valparaíso (GO), e a única loja que sofreu assalto foi a da 312 Norte. Com apenas três meses aberta, o estabelecimento já sofreu três assaltos. Por duas vezes os bandidos entraram agachados e levaram o dinheiro que estava no caixa. A câmera de segurança registrou tudo. Da outra vez, arrombaram de noite e levaram a gaveta do caixa. Perdi R$ 500. Tenho três funcionários nesta loja, mas tenho que me desdobrar para tentar manter eles aqui apesar do medo constante”, explicou.

Polícia nas ruas

Segundo o chefe do Departamento Operacional da Polícia Militar, coronel Mauro Lemos, falta efetivo de pessoal para dar conta do número de casos. “Trabalhamos com o policiamento comunitário que vai até as áreas, com o ostensivo e preventivo a pé, mais conhecido como Cosme e Damião, além de viaturas. Temos o problema de efetivo porque quanto maior o índice criminal, maior a demanda do número de policiais. Contamos com 14,8 mil policiais, quando o ideal era ter 18 mil. Estamos colocando por dia 2,5 mil policiais da PM nas ruas, mas a população tem aumentado. Prezamos pela qualidade de nossas operações, mas concordo que tem que haver quantidade também”, afirmou.

Lemos ressalta ainda que é importante que os empresários não deixem de registrar os casos, pois é assim que a corporação faz a mancha criminal para saber onde irá atuar com maior frequência. “Isso vale para todos os casos de criminalidade, pois só assim poderemos combater os diversos tipos de crime. Além disso, a nossa intenção é terminar com postos policiais fixos. A ideia é investir em postos móveis com as vans com tendas”, citou.

O coronel alerta sobre as preferências dos bandidos. “O ‘modus operandi’ do ladrão é roubar o que está mais acessível, agir o mais rápido possível e não ser preso. Ele observa a entrada e a saída das lojas e buscam o que está mais próximo da saída para facilitar a fuga, além do valor do objeto. Mas o que atrai muito o bandido é roupa de marca, tênis e joias. Farmácias chamam muito a atenção por fecharem tarde”, ressaltou.

Outro ponto ressaltado pelo militar é que o Código Penal brasileiro tem falhas e deve ser revisto porque as pessoas assaltam e vão para a delegacia presas e muito pouco acontece ou às vezes nada. “O criminoso se aproveita da falta de punibilidade e percebe que o crime compensa. Se comete um crime pequeno, depois vai para um maior. Se roubou e não matou a vítima, na próxima vez mata. Hoje quando um menor é apreendido com uma arma de brinquedo nem termo circunstancial ele assina. O menor chega à Delegacia e já é liberado. Vale lembrar também que o preso vai para a cadeia e volta pior. Hoje de cada 10 criminosos, oito são reincidentes e a tendência é aumentar. Estamos muito preocupados”, concluiu.

Novas medidas

O secretário da Segurança Pública e da Paz Social, Arthur Trindade, afirma que houve uma redução de 43,9% no comparativo com 2014 no número de assaltos no Distrito Federal. Ele adianta que novas medidas para melhorar a segurança estão sendo tomadas, como o programa Pacto pela Vida. “A expectativa é que em julho o governador Rodrigo Rollemberg assine o decreto de criação do Pacto pela Vida. O programa é uma política de enfrentamento e prevenção de violências com ações integradas entre as forças de segurança pública e métodos de governança para resolver problemas de criminalidade. O Pacto também se baseará em um sistema de escuta da sociedade e, nesse sentido, a participação dos comerciantes será fundamental. Queremos ouvi-los em cada Região Administrativa para que eles possam expor e indicar as reais demandas”, destacou.

Quadras comerciais mais assaltadas:

304 Sul

407 Sul

216 Sul

307 Sul

311 Sul

106 Norte

407 Norte

 

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