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Comércio de resistência no Distrito Federal

por acm

Diante das diversas dificuldades que os empresários enfrentam em Brasília, como falta de segurança e estacionamento, valores altos de aluguéis e impostos, ainda existem aqueles que conseguem manter seus negócios com a força da tradição, dedicação e amor ao trabalho. Com estabelecimentos criados há pelo menos 30 anos, Karl Marx, Lorival, Bohumil e Ali são exemplos de comerciantes de pequenas empresas que vieram no início da criação da capital federal, com a esperança de mudar suas histórias, e hoje têm muito que contar sobre suas conquistas diante de um mercado competitivo de médias e grandes empresas.

Mestre sorveteiro

O gerente-geral de vendas de uma multinacional no nordeste, Karl Marx Simas (79) não estava satisfeito com tantas viagens que fazia por causa do emprego, e, em 1980, idealizou abrir um negócio e inspirado em uma famosa sorveteria que conheceu em uma viagem a Belém (PA), criou a Moka’s Sorveteria, na 112 Sul. Carioca, casado e pai de três filhos, tem sua história contada com orgulho pelo filho e sócio Marcos Simas (52), que o acompanhou desde o início do seu projeto. “Lembro-me de limpar a loja que era um açougue antes. Abrimos sem a menor ideia de como era o negócio, mas ele é muito intuitivo na cozinha. Depois de anos, me dei conta que ele é um mestre sorveteiro”, diz orgulhoso.

Marcos garante que o segredo da resistência desse negócio ao mercado competitivo é a soma do preço justo, os sabores tradicionais da época e também a forma de fazê-lo que garante a qualidade. O sorvete é todo artesanal, desde a compra das frutas, preparo manual, o processamento, a base do sorvete até a finalização. “Não sabemos fazer de outra maneira. Não tenho como não falar que hoje meu produto é natural, pois fazemos do mesmo jeito desde 1980 e na época não tinha nada industrializado”, explica. Mas para manter-se no mercado de hoje, Simas propôs uma reforma para modernização do espaço e hoje garante que dobrou a quantidade de clientes. “Fiz na hora certa. Estávamos apenas estáveis. Os clientes antigos gostaram, estão elogiando. Vejo que podemos ficar ai mais 35 anos no mercado”, comemora.

Formado em Gastronomia na Espanha, Marcos, explica que a memória gastronômica também garante seus fieis consumidores. “Nossos clientes voltam sempre pra lembrar, por meio do sorvete, de alguma época da infância, da adolescência. Muitos clientes já estão trazendo os netos aqui. A pessoa busca por meio da papila gustativa, momentos de amor, de carinho, lembranças boas. Estamos atentos às crises do mercado. Vejo que o maior problema hoje são os altos aluguéis que estão fazendo fechar os comércios menores. Ainda bem que não temos esse peso”, conta.

Cautela mineira

O mineiro de Uberaba, Lorival de Almeida (74) fala sobre o sucesso da sua lanchonete Rei do Pão de Queijo, na 302 Sul, com orgulho. Mas ao falar em mudanças, reforma ou ampliação da loja, tem cautela. “Estou feliz com meu negócio. Estamos há 28 anos no mercado e meu segredo para manter minha clientela é a qualidade. A pior de todas as crises que já passei é a de agora. O mercado está difícil, todo mundo com medo. Tenho um projeto de reforma, para aumentar a marquise, melhorar nosso espaço, mas estou com medo de começar. A reforma irá ajudar a atrair clientes, mas com o mercado como está é melhor esperar pra ver”, conta. Com a reforma, Lorival pretende não só servir lanches, mas também almoço simples e barato.

A lanchonete começou em 1987 localizada no edifício das Pioneiras Sociais, na 301 Sul, até 1995, onde mudaram para o local atual. Veio para Brasília, depois de fechar dois supermercados na cidade de origem. “Fiquei desgostoso com a situação na época. Não era bom de vender. Resolvi então abrir um negócio menor. Cheguei a olhar espaços em Goiânia, mas como meu irmão já estava na capital, vim e gostei”, conta.

Lorival lembra que o comércio em Brasília de 1994 a 2000 foi muito bom, com preços estabilizados e que se vendia bem. “Naquele tempo, tinha até empresa que trazia os funcionários de ônibus para lanchar. Hoje, os meus clientes continuam, mas vejo que o pior problema para o comerciante é a contratação de mão de obra, que não tem ou não está qualificada”, reclama. Para abrir seu negócio, Almeida trouxe profissionais de Uberaba para treiná-los daqui. “Se for o caso, também sei como faz, temos as receitas para manter o padrão. Não podemos deixar cair a qualidade. É claro que a matéria-prima é primordial também”, explica. O empresário tem funcionários que têm entre 10 e 20 anos de casa.

Sem saber Português

O fundador da conhecida livraria Musimed, localizada na 505 Sul, Bohumil Med (76) é um especialista em teoria musical, professor aposentado de trompa e de matérias teóricas pela Universidade de Brasília. Formado em música em seu país, Tchecoslováquia, já coleciona diversas publicações na área. Orgulhoso de ter nacionalidade brasileira, Bohumil veio para o Brasil aos 29 anos de idade, convidado para tocar na orquestra sinfônica do Rio de Janeiro. Sem saber uma palavra em Português, veio com esperança de crescer em sua profissão e ser reconhecido.

Quando chegou ao Brasil, em pouco tempo foi convidado a dar aulas, mas não sabia a língua local. Foi então se dedicar a aprender e começou a escrever apostilas e planos de aula, e percebeu a falta de material teórico e didático de qualidade. “Trabalhava mais de 12 horas por dia, até que fui convidado para Brasília. Aqui eu trabalharia e ganharia menos, e então aproveitei o tempo de transformar minhas apostilas em livros. Abri a empresa em 1982, comecei a crescer e hoje a Musimed é a maior livraria musical da América Latina”, orgulha-se.

A loja vende também via internet para o Brasil e para o exterior. “Temos muitos itens que não existem mais na Europa, por exemplo. Há anos, em São Paulo e Rio de Janeiro, por exemplo, tinham muitas lojas boas, mas como os negócios foram fechando e resolvi comprar os acervos”, orgulha-se. Bohumil conta que tem mais de 100 mil títulos e recebe muitos músicos internacionais. “Somos referência para grandes instrumentistas do País”, conclui.

A Musimed começou no Conic e com o crescimento, precisou procurar outro ponto na cidade. Hoje com 800m², a loja vende em varejo, atacado, para exportação e também possui uma editora. “Não vejo tanta competitividade de mercado. É claro que há uma grande concorrente, a internet, que tem muita coisa de graça, mas ainda há a tradição de bons materiais. Não sei o que vai acontecer no futuro. Enquanto isso vamos nos mantendo”, explica.

Por amor

O empresário israelense Ali Aziz (70) veio sozinho para o Brasil em 1961 e não consegue esconder de ninguém sua paixão pelo comércio. “Adoro trabalhar, vender, comprar, viajar, e não largo isso nunca. Já tive vontade de fechar essa loja, mas só não faço por não saber fazer outra coisa”, declara, apesar de diversas dificuldades que encontrou durante os quase 50 anos como comerciante no Brasil.

Antes de vir ao País, não conseguia ver seu futuro em Israel e com contatos no Brasil, decidiu vir de navio para tentar a vida aqui. “O regime do meu país era muito difícil de viver. Tinha amigos aqui e vendo as revistas com culturas brasileiras me encantei. Deixei minha mãe e meus seis irmãos. Decidi vir ganhar a vida”, conta. Ali foi primeiro para São Paulo, onde conheceu pessoas da área de confecção. Visitou o Rio Grande do Sul e por fim veio para a capital federal. Depois de 10 anos, abriu duas lojas do ramo no Núcleo Bandeirante e só então resolveu voltar para seu país, para visitar.

Uma dessas lojas foi a Mundo das Modas, na Comercial Norte, em Taguatinga, que em 1972, mudou o nome para Lojas Everest e ampliou comprando mais três portas ao lado. “Naquela época, tudo que eu colocava exposto vendia. No Natal, as ruas estavam enfeitadas, tinha segurança, muito movimento e as vagas do estacionamento estavam sempre livres para os clientes. Tinha até competição da loja mais enfeitada”, relembra.

Hoje, proprietário de diversos pontos em Brasília, mantém com garra a tradicional Loja Everest. Desanimado com a realidade do comércio atual, Ali acredita que a estrutura da cidade está largada, não tem estacionamento, iluminação ou policiamento. “O movimento caiu muito. Não tenho dinheiro para pagar funcionários, impostos. Só vejo aborrecimento hoje. Um dos grandes culpados é o estacionamento. Se está chovendo, você vai preferir ir ao shopping. Se quer pagar mais barato, vai para as feiras. A competição é grande com empresários que conseguem comprar em grandes polos como a China”, desabafa.

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