fbpx

Cenário árido para o comércio

Pelas ruas de Brasília é possível ver uma nova fachada nas lojas. Em uma única quadra no Plano Piloto, são quase 10 estabelecimentos fechados e faixas penduradas com os dizeres “Passo o ponto”, “Aluga-se” ou “Vende-se”. O levantamento de lojas feito nas 27 Regiões Administrativas pela Associação Comercial do Distrito Federal (ACDF) mostra que em dezembro de 2014, 7.642 lojas foram fechadas, o que corresponde a 16,16% do total de empreendimentos do DF. A Asa Norte é a região mais atingida, com 1.561 desse total.

Na Asa Sul, a situação também não está fácil. No mercado há 23 anos, com seis lojas no DF, sendo quatro na cidade, a empresária Esdra Pereira Ramos Chaer conta como a realidade comercial mudou. “Tenho loja aqui na 305 Sul desde 1972. Nunca tinha ficado com espaços fechados. Temos quatro lojas aqui, e uma delas eu resolvi abrir um negócio para mim, a Villa Biju, e a outra está fechada desde setembro do ano passado”, lamenta. Esdra conta que já tentou algumas estratégias para ocupar o estabelecimento, como, diminuir o valor do ponto, porém, precisou desistir e oferece o aluguel. “Antes, não precisávamos fazer nem anúncio. Quando um inquilino saia, já tinha outro esperando o ponto. A última pessoa que estava aqui passou 14 anos e fechou as portas. Não conseguiu mais sustentar. No último ano, passou a não honrar com as despesas mensais e me deixou um prejuízo de R$ 30 mil em aluguel e IPTU atrasado”, conta.

Para a empresária, as principais razões para essa crise no comércio de rua são basicamente econômicas: os altos custos aluguel, com impostos, encargos trabalhistas e a alta do dólar. “Para a loja vazia, até aparece gente interessada. Já baixei o preço várias vezes, mas o valor espanta. Na minha loja, trabalho com mercadorias importadas. Quando fui repor alguns itens, levei um susto. Está literalmente o dobro do valor da última compra. Acabo diminuindo a margem de lucro, para tentar manter o preço e não espantar minhas clientes”, explicou.

Outra reclamação de Esdra recai sob a falta de incentivos por parte do GDF. “O governo parece não estar preocupado em criar uma política de incentivos. A crise é geral, mas o que o GDF está fazendo aqui? Para mim, nada”, desabafa.

O doutor em Economia da UnB, Flávio Augusto Corrêa Basílio, explica que o fator econômico tem realmente afetado a categoria. Flávio conta que a economia já estava em retração em 2014 e os empresários estavam aguardando as vendas entre o Natal e o Dia das Mães deste ano, para tomarem uma decisão sobre como proceder com seus negócios. “As expectativas estão se confirmando que a situação é grave. É um sintoma da própria economia geral. Como nada mudou, mesmo antes do Dia das Mães, muitos não conseguiram se sustentar no mercado e estão fechando as portas”, justifica.

O economista explicou ainda que o consumidor está cauteloso. “O custo de vida subiu. Isso afeta principalmente os mais pobres e a classe média. As pessoas com o poder aquisitivo maior estão adiando grandes decisões de compra. Também estão temerosas. Acredito que a situação pode complicar”, lamenta.

As vendas tão esperadas para o respiro do comércio realmente não alcançaram números desejáveis. Foi registrada uma queda de 6,34% em fevereiro deste ano, em relação a janeiro, o que mostra que a situação delicada do comércio se confirma. Esse é o resultado da Pesquisa Conjuntural de Micro e Pequenas Empresas do DF, realizada pelo Instituto Fecomércio. Em um período de um ano (2014-2015), a variação ficou em -17,36%.

De acordo com o presidente da Fecomércio-DF, Adelmir Santana, é possível que os consumidores tenham reservado parte da renda para atender às obrigações tributárias de início de ano. “Vale observar que apesar do índice ser negativo, houve um esforço de recuperação do setor com promoções e ofertas de pagamento facilitado. Estratégias comuns no varejo para atrair os consumidores diante de um contexto econômico difícil”, explica.

A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada pela Fecomércio-DF, mostra um cenário ainda mais complicado. O número de famílias endividadas na capital passou de 602.980 em fevereiro para 608.700 em março de 2015. Um aumento de 5,7 mil pessoas. Isso significa que 82,2% possuem algum tipo de dívida. Adelmir Santana destaca uma preocupação com esse quadro. “Os consumidores estão apreensivos com a alta da inflação, encarecimento do crédito e os problemas da economia nacional. As famílias brasilienses também estão bastante endividadas, o que contribui para um baixo consumo”, explicou. Ainda segundo a instituição, a expectativa entre os empresários que estão com as portas abertas é de que o Dia das Mães servirá como um termômetro. “Se as vendas não melhorarem, a partir de maio o setor pode começar a demitir funcionários em função do prejuízo”, completou o presidente da Fecomércio.

Além da situação econômica desfavorável, há empresários que levantam questões como segurança e falta de estacionamento para acesso dos clientes. A proprietária da Safira – Aluguel de Acessórios e Vestidos, localizada na 307 Sul, Poliana Batista Pereira está isolada entre estabelecimentos fechados. No bloco, há apenas uma loja aberta além da dela. “Está tudo fechado aqui em volta. Estou há sete anos e meio aqui e nunca vi isso. Esses dias mesmo sequestraram um cliente aqui na quadra. Estamos com medo. Qualquer movimento estranho, a recomendação para minhas funcionárias é: pode fechar a porta”, conta.

Varejo
O Sindicato do Comércio Varejista do DF (Sindivarejista-DF) realizou um levantamento das lojas fechadas na W3 Sul, uma das avenidas mais preocupantes em relação a fechamento de lojas. Já são mais de 180 lojas até março, contra 107 do ano passado no mesmo período do ano passado. O presidente do sindicato, Edson de Castro, cita as preocupações mais comuns, como aluguel alto, impostos, insegurança e queda nas vendas, e ressalta o alto nível de desempregos gerados. “O fechamento de tantas lojas, na W3 e em toda a cidade, representa por volta de 10 mil pessoas desempregadas, considerando uma média de cinco empregados por loja”, explica. Preocupado com a famosa avenida comercial, o sindicato apresentou ao GDF uma proposta para dar um novo rumo comercial para a avenida: cobrar menor IPTU para lojas abertas e maior para lojas fechadas. “Assim, estaremos objetivando reduzir os aluguéis da avenida”, conclui.
O presidente do Sindicato do Comércio Atacadista do DF (SindiAtacadista-DF), Roberto Gomide, explica que a economia é uma cadeia e que o setor atacadista se alimenta do varejista e à medida que esse tem dificuldade, o reflexo acontece na mesma proporção. “Se o consumidor do varejista não compra, nós também não vendemos. Com relação às lojas que fecham é ainda mais grave. Os que chegam à falência não pagam o atacado e a inadimplência aumenta substancialmente. Percebemos que no primeiro trimestre houve uma queda em torno de 10% nas vendas do atacado. A inadimplência aumentou na mesma medida”, lamenta.

Reflexo do passado
Segundo o especialista em varejo, Alexandre Ayres, por trás da crise apontada pelas pesquisas e confirmada pelos empresários, há um histórico. Com a economia aquecida, no período de 2010, e com melhorias de indicadores de consumo, a oferta de varejo cresceu até mais que as condições para compras. “Todas as vezes que a economia cresce, o comércio reage com velocidade. Como a melhoria do consumo foi relativamente longa, o empresário vislumbrou uma expansão de mesma intensidade”, conta.

O especialista explica que com o desaquecimento do consumo, que já vem há mais de um ano, mesmo as redes mais capacitadas já começaram a se estruturar para reduzir o número de lojas. Segundo Ayres, a taxa de mortalidade das empresas de comércio corresponde a 80% de todos os setores. “A confiança do consumidor, os lojistas iniciantes (inexperientes) e o problema real de queda de consumo geram esse efeito terrível sob as áreas comerciais. Acredito que lojas continuarão a ser fechadas até que a economia tenha uma melhoria concreta”, disse.

Dentre os fatores que Alexandre afirma serem difíceis para o setor estão ainda tributação excessiva, problemas jurídicos, falta de garantias mínimas de segurança, infraestrutura (estacionamento, iluminação), estrutura de saneamento em grande parte. “O governo federal e estadual criaram o pior ambiente de negócios do mundo no Brasil. Não precisa só de incentivo, é preciso desburocratizar. O comerciante não é um especialista em tributação, por isso deveria ser mais fácil, exigir menos, para que ele consiga tocar sua loja. Mais segurança pública também, pois parte do movimento de clientes está no shopping, já que não há segurança na rua”, conclui.

NÚMEROS
– Em dezembro de 2014, 7.642 lojas foram fechadas – isso representa 16,16% do total de empreendimentos do DF

– A Asa Norte teve 1.561 lojas fechadas em um mês de 2014

Olá! O nosso site usa cookies e, portanto, coleta informações sobre sua visita para melhorar nosso site. Por favor, consulte nossa página de política de cookies e  para mais detalhes ou concorde clicando no botão 'Aceitar'.

Configurações de cookies

A seguir, você pode escolher os tipos de cookies que permite neste site. Clique no botão "Salvar configurações de cookies" para aplicar sua escolha.

FunctionalNosso site usa cookies funcionais. Esses cookies são necessários para permitir que nosso site funcione.

AnalyticalNosso site usa cookies analíticos para permitir a análise de nosso site e a otimização para o propósito de usabilidade.

Social mediaNosso site coloca cookies de mídia social para mostrar conteúdo de terceiros, como YouTube e Facebook. Esses cookies podem rastrear seus dados pessoais.

AdvertisingNosso site coloca cookies de publicidade para mostrar anúncios de terceiros com base em seus interesses. Esses cookies podem rastrear seus dados pessoais.

OtherNosso site coloca cookies de terceiros de outros serviços de terceiros que não são analíticos, mídia social ou publicidade.